CONDIÇÕES HISTÓRICAS PARA O SURGIMENTO DA FILOSOFIA

1 – CONDIÇÕES HISTÓRICAS PARA O SURGIMENTO DA FILOSOFIA

1.1 – GRÉCIA: O BERÇO DA FILOSOFIA
POR QUE A FILOSOFIA SURGIU JUSTAMENTE NA GRÉCIA?

BEM… HAVIA DUAS TEORIAS A ESSE RESPEITO…

1.2 – TEORIA ORIENTALISTA
TEORIA ORIENTALISTA

A primeira teoria defendia que a origem da filosofia está ligada ao contato que os gregos tiveram com a sabedoria oriental (egípcia, persa, caldéia e babilônica).

Vários pesquisadores são categóricos ao afirmar que as grandes civilizações orientais mantiveram contato com as civilizações gregas e essas determinaram formas da vida social, da religião, das artes e das técnicas usadas pelos gregos.

1.3 – TEORIA DO MILAGRE GREGO
MILAGRE GREGO

Uma segunda teoria, no entanto, afirmava que o surgimento da filosofia na Grécia se deve a um espécie de “milagre grego”, ou seja, os gregos foram um povo excepcional, sem nenhum outro semelhante a eles, nem antes nem depois deles, e por isso somente eles poderiam ter sido capazes de criar a filosofia, as ciências e dar às artes uma elevação que nenhum outro povo conseguiu.

1.4 – CONTEXTO HISTÓRICO
As duas teorias são, de certa forma, exageradas, pois ambas foram criadas e defendidas diante de um contexto histórico, ou seja, cada um querendo valorizar o seu e desmerecer o do outro.

O fato é, e não temos mais dúvida, que a filosofia surgiu na Grécia. É grega. Mas não foi uma apropriação e nem milagre, e sim uma junção de fatos históricos ocorridos na Grécia.

Durante o século VII a.C., as novas condições de vida das colônias gregas da Ásia menor acentuam-se devido à revolução econômica representada pela adoção do regime monetário.

A moeda, facilitando as trocas, vem fortalecer econômica e socialmente aqueles que vivem do comércio, da navegação e do artesanato, marcando definitivamente a decadência da organização social baseada na aristocracia de sangue.

A partir de então, e sobretudo no decorrer do século VII a.C., a expansão das técnicas (artesanato, manufatura) – já desvinculadas da primitiva concepção que lhes atribuía origem divina – passa a oferecer ao homem imagens explicativas dotadas de alta dose de racionalidade.

Sendo assim, as coisas deixam de ser uma graça divina e passam a ser reconhecidas como uma modificação elaborada e produzida pelo homem. A técnica que o homem consegue compreender e dominar a ponto de realizá-la com suas próprias mãos, repeti-la e, sobretudo, ensiná-la apresenta-se como um processo de transformação e de criação.

Por que não seria semelhante às modificações no mundo, uma elaboração humana, este processo (trabalho) que teria produzido o universo atual e dentro dele continuaria a operar mudanças?

Natural, portanto, que ocorressem nas colônias gregas da Ásia Menor as primeiras manifestações de um pensamento dotado de tamanha exigência e compreensão racional que, depois de produzir as epopéias homéricas (entre os séculos X e VIII a.C.), surgiu, no século VI a.C., sob forma de ciência e filosofia.

É bem verdade que, já no século VIII a.C., Hesíodo expusera em suas obras poéticas uma síntese de relatos míticos tradicionais, narrando as origens através de uma genealogia (narrativa da geração dos seres, das coisas e das qualidades, por outros seres, que são seus pais ou antepassados), que ligavam deuses e mortais.

Mas, a partir do século VI a.C., esse tipo de narrativa mítica cedeu lugar a uma nova e mais radical forma de pensamento racional, que não partia da tradição mítica, mas de realidades compreendidas na experiência humana cotidiana.

Resultado da progressiva valorização da “medida humana” e da exclusão dos elementos religiosos do mundo vivido pelos gregos, despontou nas colônias da Ásia Menor uma nova forma de ver o mundo, que orientou racionalmente a vida cotidiana, buscando juntá-los numa visão inteligível e globalizadora.

Dentro desse espírito, surgiram, na Jônia, as primeiras concepções científicas e filosóficas da cultura ocidental, propostas pela escola de Mileto, fundada pelo primeiro filósofo Tales de Mileto (século VI a.C).

Importante perceber que todas essas mudanças foram elaboradas pelo próprio intelecto humano, ou seja, pelo seu poder de abstração e desmitificação do mundo que vivia.

Por isso, não se pode considerar que a filosofia é algo que surgiu espontâneamente, como um “milagre grego”.

A tese “orientalista” também enfraquece quando são estudadas as outras condições históricas que viviam os gregos e que se juntaram na construção da racionalidade.

Nas próximas páginas, apontaremos algumas das principais condições históricas para o surgimento da filosofia na Grécia…

AS VIAGENS MARÍTIMAS:

As viagens produziram o desencantamento, a desmitificação do mundo, que passou assim a exigir uma explicação sobre sua origem, explicação que o mito já não podia oferecer;

A INVENÇÃO DO CALENDÁRIO:

A racionalização do tempo produziu uma percepção do tempo como algo natural e não como um poder divino incompreensível;

A INVENÇÃO DA MOEDA:

A moeda permitia uma troca abstrata e não através de das coisas concretas ou dos objetos trocados por semelhança, revelando, portanto, uma nova capacidade de abstração e de generalização;

O SURGIMENTO DA VIDA URBANA:

Com o predomínio do comércio e do artesanato, e o desenvolvimento das técnicas de fabricação e de troca, diminui o prestígio das famílias da aristocracia proprietária de terras, por quem e para quem os mitos foram criados;

A INVENÇÃO DA ESCRITA ALFABÉTICA:

A escrita a escrita alfabética ou fonética revela o crescimento da capacidade de abstração e de generalização, uma vez que, diferentemente de outras escritas (exemplo: os hieróglifos dos egípcios ou os ideogramas dos chineses), supõe que não se represente uma imagem da coisa que esta sendo dita, mas a ideia dela, o que dela se pensa e se transcreve;

A INVENÇÃO DA POLÍTICA:

A invenção da política introduz três aspectos novos e decisivos para o nascimento da filosofia, os quais veremos nas próximas páginas…

1 – A LEI

A ideia da lei como expressão da vontade de uma coletividade humana que decide por si mesmo o que é melhor para si e como ela definirá suas relações internas.

O aspecto legislado e regulado da cidade – da polis – servirá de modelo para a filosofia propor o aspecto legislado, regulado e ordenado do mundo como um mundo racional.

2 – O ESPAÇO PÚBLICO

O surgimento de um espaço público, que faz aparecer um novo tipo de palavra ou de discurso, diferente daquele que era proferido pelo mito.

Com a polis, isto é, cidade política, surge a palavra como direito de cada cidadão de emitir em público sua opinião, discuti-la com os outros, persuadi-los a tomar uma decisão proposta por ele.

Assim surge o discurso político como palavra humana compartilhada, como o diálogo, discussão e deliberação humana, isto é, como uma decisão racional e exposição dos motivos ou das razões para fazer ou não fazer alguma coisa.

3 – ESTÍMULO AO PENSAMENTO PÚBLICO

A política estimula um pensamento e um discurso que não procuram ser formulados por seitas secretas dos iniciados em mistérios sagrados, mas procuram, ao contrário, ser públicos, ensinados, transmitidos, comunicados e discutidos.

A ideia de um pensamento que todos podem comunicar e transmitir é fundamental para a filosofia.

1.5 – CONCLUSÃO
Portanto, é necessário ratificar: a filosofia é um ato originalmente grego, fruto de uma série de acontecimentos que criaram as condições para seu florecimento, e que representou uma mudança definitiva em nossa forma de pensar.

Será que se os gregos não tivessem criado a filosofia, estaríamos hoje acreditando em diversos deuses? Vivendo numa aristocracia avalizada pela genealogia? Agradecendo os deuses pelo dia? Pedindo aos deuses pelo dia seguinte? Aos gregos devemos hoje a nossa racionalidade.

FONTE: Juris Way

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Sobre César.

Liberdade é o direito de fazer tudo o que a lei permite. Montesquieu

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