OS FILÓSOFOS MODERNOS E A TEORIA DO CONHECIMENTO
1 – OS FILÓSOFOS MODERNOS E A TEORIA DO CONHECIMENTO

No texto anterior (O conhecimento e os primeiros filósofos), vimos que os gregos se surpreendiam com a possibilidade da existência de erro, ilusão e mentira.

Como a verdade – aletheia – era concebida como presença e manifestação do verdadeiro aos nossos sentidos ou ao nosso intelecto, isto é, como presença do Ser à nossa experiência sensível ou ao puro pensamento, as perguntas filosóficas eram: Como pode existir o erro ou a ilusão? Como é possível ver o que não é, dizer o que não é, pensar o que não é?
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Durante toda a Idade Média, a fé tornou-se central para a Filosofia, pois era através dela que essas perguntas eram respondidas.

Auxiliada pela graça divina, a fé iluminava nosso intelecto e guiava nossa vontade, permitindo à nossa razão o conhecimento do que está ao seu alcance, ao mesmo tempo em que nossa alma recebia os mistérios da revelação.

A fé nos fazia saber (mesmo que não pudéssemos compreender como isso era possível) que, pela vontade soberana de Deus, era concedido à nossa alma imaterial conhecer as coisas materiais.

Os filósofos modernos, porém, entendem que a situação é exatamente contrária.

Se a verdade depende da revelação e da vontade divinas, e se nosso intelecto foi pervertido pela nossa vontade pecadora, como podemos conhecer a verdade?

Se a verdade depender da fé e da fraqueza da nossa vontade, como nossa razão poderá conhecê-la?

A primeira tarefa dos filósofos modernos foi separar a fé da razão, considerando cada uma delas destinada a conhecimentos diferentes e sem qualquer relação entre si.

A segunda tarefa foi a de explicar como a alma-consciência, embora diferente dos corpos, pode conhecê-los. Consideraram que a alma pode conhecer os corpos porque os representa intelectualmente por meio das idéias e estas são imateriais como a própria alma.

A terceira tarefa foi a de explicar como a razão e o pensamento podem tornar-se mais fortes do que a vontade e controlá-la para que evite o erro.

O problema do conhecimento torna-se, portanto, crucial e a Filosofia precisa começar pelo exame da capacidade humana de conhecer, pelo entendimento do sujeito do conhecimento.

A teoria do conhecimento volta-se para a relação entre o pensamento e as coisas, a consciência (interior) e a realidade (exterior), o entendimento e a realidade; em suma, o sujeito e o objeto do conhecimento.

Os dois filósofos que iniciam o exame da capacidade humana para o erro e a verdade são o inglês FRANCIS BACON e o francês RENÉ DESCARTES. 

O filósofo que propõe, pela primeira vez, uma teoria do conhecimento propriamente dita é o inglês JOHN LOCKE. 

A partir do século XVII, portanto, a teoria do conhecimento torna-se uma disciplina central da Filosofia.

BACON E DESCARTES

BACON elaborou uma teoria conhecida como a crítica dos ídolos (a palavra ídolo vem do grego eidolon e significa imagem). 

DESCARTES, autor da célebre frase “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo), elaborou um método de análise conhecido como dúvida metódica.

De acordo com BACON, existem quatro tipos de ídolos ou de imagens que formam opiniões cristalizadas e preconceitos, que impedem o conhecimento da verdade:

1. ÍDOLOS DA CAVERNA: as opiniões que se formam em nós por erros e defeitos de nossos órgãos dos sentidos. São os mais fáceis de corrigir por nosso intelecto;

2. ÍDOLOS DO FÓRUM: são as opiniões que se formam em nós como consequência da linguagem e de nossas relações com os outros. São difíceis de vencer, mas o intelecto tem poder sobre eles;

3. ÍDOLOS DO TEATRO: são as opiniões formadas em nós em decorrência dos poderes das autoridades que nos impõem seus pontos de vista e os transformam em decretos e leis inquestionáveis. Só podem ser refeitos se houver uma mudança social e política;

4. ÍDOLOS DA TRIBO: são as opiniões que se formam em nós em decorrência de nossa natureza humana; esses ídolos são próprios da espécie humana e só podem ser vencidos se houver uma reforma da própria natureza humana.

BACON acreditava que o avanço dos conhecimentos e das técnicas, as mudanças sociais e políticas e o desenvolvimento das ciências e da Filosofia propiciariam uma grande reforma do conhecimento humano, que seria também uma grande reforma na vida humana.

Tanto assim que, ao lado de suas obras filosóficas, escreveu uma obra filosófico-política, a Nova Atlântida, na qual descreve e narra uma sociedade ideal e perfeita, nascida do conhecimento verdadeiro e do desenvolvimento das técnicas.

DESCARTES Localizava a origem do erro em duas atitudes que chamou de atitudes infantis:

1. A PREVENÇÃO: é a facilidade com que nosso espírito se deixa levar pelas opiniões e idéias alheias, sem se preocupar em verificar se são ou não verdadeiras. São as opiniões que se cristalizam em nós sob a forma de preconceitos (colocados em nós por pais, professores, livros, autoridades) e que escravizam nosso pensamento, impedindo-nos de pensar e de investigar;

2. A PRECIPITAÇÃO: é a facilidade e a velocidade com que nossa vontade nos faz emitir juízos sobre as coisas antes de verificarmos se nossas idéias são ou não são verdadeiras. São opiniões que emitimos em consequência de nossa vontade ser mais forte e poderosa do que nosso intelecto. Originam-se no conhecimento sensível, na imaginação, na linguagem e na memória.

Como BACON, DESCARTES também está convencido de que é possível vencer esses efeitos, graças a uma reforma do entendimento e das ciências. (DESCARTES não pensa na necessidade de mudanças sociais e políticas, diferindo de BACON nesse aspecto.)

Essa reforma pode ser feita pelo sujeito do conhecimento, se este decidir e deliberar pela necessidade de encontrar fundamentos seguros para o saber. Para isso DESCARTES criou um procedimento, a DÚVIDA METÓDICA, pela qual o sujeito do conhecimento, analisando cada um de seus conhecimentos, conhece e avalia as fontes e as causas de cada um, a forma e o conteúdo de cada um, a falsidade e a verdade de cada um e encontra meios para livrar-se de tudo quanto seja duvidoso perante o pensamento.

Ao mesmo tempo, o pensamento oferece ao espírito um conjunto de regras que deverão ser obedecidas para que um conhecimento seja considerado verdadeiro.

Para DESCARTES, o conhecimento sensível (isto é, sensação, percepção, imaginação, memória e linguagem) é a causa do erro e deve ser afastado. 

O conhecimento verdadeiro é puramente intelectual, parte das idéias inatas e controla (por meio de regras) as investigações filosóficas, científicas e técnicas.

LOCKE

LOCKE é o iniciador da teoria do conhecimento propriamente dita porque se propõe a analisar cada uma das formas de conhecimento que possuímos a origem de nossas idéias e nossos discursos, a finalidade das teorias e as capacidades do sujeito cognoscente relacionadas com os objetos que ele pode conhecer. 

Seguindo a trilha que fora aberta por ARISTÓTELES, LOCKEtambém distingue graus de conhecimento, começando pelas sensações até chegar ao pensamento.

VISTO QUE O ENTENDIMENTO SITUA O HOMEM ACIMA DOS OUTROS SERES SENSÍVEIS E DÁ-LHE TODA VANTAGEM E TODO DOMÍNIO QUE TEM SOBRE ELES, SEU ESTUDO CONSISTE CERTAMENTE NUM TÓPICO QUE, POR SUA NOBREZA, É MERECEDOR DE NOSSO TRABALHO DE INVESTIGÁ-LO. O ENTENDIMENTO, COMO O OLHO, QUE NOS FAZ VER E PERCEBER TODAS AS OUTRAS COISAS, NÃO SE OBSERVA A SI MESMO; REQUER ARTE E ESFORÇO SITUÁ-LO À DISTÂNCIA E FAZÊ-LO SEU PRÓPRIO OBJETO.
LOCKE
Assim como ARISTÓTELES diferia de PLATÃO, LOCKEdifere de DESCARTES.

PLATÃO E DESCARTES afastam a experiência sensível ou o conhecimento sensível do conhecimento verdadeiro, que é puramente intelectual. 

ARISTÓTELES E LOCKE consideram que o conhecimento se realiza por graus contínuos, partindo da sensação até chegar às idéias.

FONTE: Juris Way

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Sobre César.

Liberdade é o direito de fazer tudo o que a lei permite. Montesquieu

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  1. Mozart da Fontoura Malafaia disse:

    Se é a Lei que nos dá o direito de fazer tudo o que se quer, podemos ter tudo segundo nossa volição, mas não (podemos) ter a Liberdade de tudo fazer, mesmo que essa lei seja injusta. Assim, para nós, o direito não é a lei, mas a lei faz-se com o direito na crítica interpretação construtiva da (nor)ma. (Dir)eito é direcionar a vontade da lei e não a lei impor-se à razão do direito, pois que nem toda volição da lei é direito. O direito (norma)tiza a lei que vige e vigora pela (constru)tividade crítica. À medida que constrói-se a norma, forma-se o direito objetivo de construir-se subjetivamente. E (inter)pretar é penetrar – analiticamente entre dois pensamentos representativos -, (representar) da figura da [simbologia] da conduta a ser adotada como regra por princípio ante nossos semelhantes. Entre o direito de um e o de outro (inter)penetra-se o direito de todos ante o direito de um ser alguém ante outrem entre ninguém(além de todos)!

  2. Mozart da Fontoura Malafaia disse:

    A nosso ver, Conhecimento é algo que sentimos saber, mesmo sem antes conhecer externamente (através de dados, informações, experiência), para então aprender para apreender “arquivando-o” em nosso banco de memórias, interpretando-o segundo nosso modo de ver, sentir, reagir às coisas.

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