O tráfico submerso da Colômbia

Por Miriam Burgués
Da EFE

Reinventar-se ou morrer. É a máxima que rege o negócio do narcotráfico na Colômbia, sobretudo quando se fala do transporte da droga. A Marinha Nacional passou a encontrar no mar de pequenas lanchas, rudimentares mas muito rápidas, a autênticas naves submersíveis em fibra de vidro e com autonomia de navegação até o México.

“As primeiras embarcações autônomas para o narcotráfico que encontramos, as lanchas ‘gofast’ (chamadas assim por sua rapidez), eram pequenas, com dois motores”, conta à Agência Efe o almirante Álvaro Echandía, comandante da marinha colombiana.

Depois “foram evoluindo” até ter três, quatro e cinco motores. “Houve um tempo em que usavam motores internos, mas não lhes deram resultado porque no mar qualquer problema deixava a lancha fora de serviço, à deriva”, resume.

Muitas destas embarcações, segundo informação proporcionada por capturados ou náufragos, “se perdiam” e não eram adequadas para travessias em alto-mar.

Tinham que idealizar algo e começaram tapando a cobertura com fibra de vidro, para torná-la mais segura e protegê-la das ondas. Assim, a droga, geralmente coberta com plástico ou látex, também não se molhava.

Da lancha ao submersível

Echandía explica que a evolução continuou com os motores que passaram a ser a diesel para evitar a irradiação de calor, mas as torna mais fáceis de detectar do ar por infravermelhos. “Mudaram a velocidade por causa da discrição”. Já eram semissubmersíveis, com uma pequena casinha para o piloto.

O primeiro aparelho deste tipo a Marinha encontrou em 1993 perto da ilha de Providencia, no Caribe. Tinha capacidade para transportar uma tonelada de droga e “muito chumbo” para poder submergir.

“Já não utilizam chumbo, mas usam como lastro a própria cocaína”, revela o almirante, detalhando que a Marinha confiscou 60 semissubmersíveis desde 1993. No dia 13 de fevereiro, um achado perto da desembocadura do rio Saijá, no departamento do Cauca (sudoeste), surpreendeu as autoridades.

Era um autêntico submarino com periscópio e radar, capaz de submergir-se completamente e navegar até a nove metros de profundidade, com uma capacidade de carga de oito toneladas de droga e uma autonomia de navegação da Colômbia até o México.

O chefe do Comando Conjunto Pacífico Número Dois do Exército, o general Jaime Herazo, explicou então à Efe na mesma região do achado que sua construção teria custado mais de 4 bilhões de pesos colombianos (cerca de US$ 2,2 milhões).

A fabricação, um negócio à parte

Transformado o narcotráfico em um fenômeno com muitas ramificações, segundo Echandía, já não há um cartel que controle tudo, mas organizações de delinquentes que, no caso dos submersíveis, se encarregam de construí-los e participar do negócio através do transporte da droga.

Estas organizações “não fazem parte da cadeia de produção, não cultivam folha de coca, não processam a cocaína”, esclarece o chefe da Marinha, acrescentando que recebem a droga “quase no ponto de embarque” e alguns de seus integrantes fornecem “dólares ou materiais” para os submersíveis.

Eles são construídos em estuários de rios e mangues ocultos pela vegetação da selva, especialmente no litoral do Pacífico, e uma vez terminados esperam as marés subirem para fazê-los navegar.

“O submersível achado no último dia 13 de fevereiro estava em uma região que é como uma teia, com pequenos canais de água muito estreitos. Por isso é supremamente difícil detectá-los”, admite Echandía. São armados por períodos, às vezes em lugares diferentes e com pessoas diferentes para cada fase.

Uma vez prontos, prestam serviço a diversos grupos ilegais: a guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), a mais antiga da América Latina; os novos grupos criminosos, chamados “bacrim” e constituídos em boa parte por antigos paramilitares; e os narcotraficantes “puros”, muitos com nexos com cartéis mexicanos.

Os caminhos da droga

“Há rotas do narcotráfico que saem da Colômbia e outras que passam pela Colômbia”, diz o almirante.

“Existem várias pelo Pacífico e inclusive uma corre além das ilhas equatorianas de Galápagos. A chamada central rodeia a América Central, tanto pelo Pacífico como pelo Caribe. E a oriental vai em direção à ilha Hispaniola (República Dominicana e Haiti), África e Europa”, completa.

O controle dessas rotas define as alianças e disputas entre as Farc e as “bacrim”. No começo de fevereiro, um confronto em uma zona rural da Argélia, no Cauca, entre o grupo guerrilheiro e um desses bandos, conhecido como Los Rastrojos, deixou 15 mortos.

Isso demonstra, de acordo com Echandía, que as alianças entre eles no negócio da droga são “de conveniência”. “Às vezes quebram esses pactos e a única forma de responder é violentamente. No narcotráfico os erros são pagos com a vida, aqui não há meio termo”, ressalta.

Novas leis

Na média, desde 2005 a Marinha confisca a metade da quantidade total de droga apreendida anualmente na Colômbia, que recebe apoio dos Estados Unidos em virtude de um acordo marítimo assinado por ambos os países nos anos 90.

De 66 toneladas de cocaína apreendidas pela Marinha em 2006 se passou para 97 em 2009. “Após um ano muito bom vem um mau”, porque as máfias do narcotráfico “reagem”, diz Echandía. Em 2010 caiu para 67 toneladas.

Em relação à descoberta de semissubmersíveis, se passou de 20 em 2009 para apenas seis em 2010. O almirante lembra que em 2009 se aprovou uma lei na Colômbia que estabelece que “o contato com este tipo de embarcação é ilegal”.

Quem é surpreendido em uma destas embarcações recebe multas de até US$ 12 milhões e penas de prisão, mesmo que não haja drogas a bordo.

Essa nova legislação botou medo em muitas máfias, que se foram “para outros lados” para construir os submersíveis, argumenta Echandía.

De fato, a Marinha do Equador descobriu em agosto de 2010 uma espécie de estaleiro onde se presume que se fabricou um pequeno “narcossubmarino” achado um mês antes, em uma região de selva litorânea próxima à fronteira com a Colômbia.

Antonio César Portela

cesinha.27a@hotmail.com

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Liberdade é o direito de fazer tudo o que a lei permite. Montesquieu

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