ADVOGADO DA UNIÃO
PROVA OBEJTIVA COMENTADA
DIREITO CIVIL – GRUPO II
PROF. BRUNO ZAMPIER
Suponha que, no dia 20 de janeiro, tenha sido publicada lei estabelecendo, no art. 2.º,
que os proprietários de veículos populares pagariam, na ocasião do abastecimento,
20% a menos do preço fixado na bomba de combustível. Suponha, ainda, que, no art.
5.º, a referida lei tenha definido veículo popular como aquele com motorização até 1.6.
Considerando essa situação hipotética, julgue os itens a seguir.
91 Se não constar do texto da referida lei a data de vigência, ela passará a vigorar a
partir da data oficial de sua promulgação.
92 Caso o juiz constate erro na definição de veículo popular pela referida lei, ele
poderá, em processo sob seu exame, corrigi-lo sob a fundamentação de que toda lei
necessita ser interpretada teleologicamente e de que, na aplicação da lei, o juiz
atenderá aos fins sociais a que ela se dirige e às exigências do bem comum.
COMENTÁRIO.
91 – ERRADA – Nos termos da LICC (art. 1º), a lei entrará em vigor 45 dias após a
sua publicação oficial, salvo disposição em contrário.
92 – CERTA – A interpretação teleológica visa superar a literalidade da lei (lógica
formal). Assim, cabe ao juiz, tendo-se em vista o fim a que a norma procura alcançar,
dar à lei seu real significado. No caso, todos sabem que carro popular é o que tem
motorização até 1.0, não 1.6, como disse na questão. Este erro do legislador pode ser
superado pelo intérprete, alcançando-se assim os fins sociais a que a lei realmente se
destinara.
No item a seguir, é apresentada uma situação hipotética seguida de uma assertiva a
ser julgada, com relação ao direito obrigacional.
93 Carla cedeu a Sílvia crédito que possuía com Luíza. Na data avençada para
pagamento do débito, Sílvia procurou Luíza, ocasião em que ficou sabendo da
condição de insolvência da
devedora. Nessa situação, Carla será obrigada a pagar a Sílvia o valor correspondente
ao crédito, haja vista a regra geral de que o cedente responde pela solvência do
devedor.
COMENTÁRIO
93 – ERRADA – Conforme dito em sala de aula, a regra na cessão de crédito é que
ela ocorra pro soluto, ou seja, o cedente responde apenas pela existência do crédito,
mas não pela solvência do devedor cedido. Só responderá pela solvência deste se
expressamente se obrigar, caso em que a cessão será pro solvendo. Mesmo assim,
voltando-se o cessionário contra o cedente, não poderá cobrar mais que o valor que
tenha desembolsado por aquele crédito. Ver arts. 295 a 297, CC.
Regina e Jorge são casados pelo regime da comunhão parcial de bens e possuem
dois imóveis, um apartamento de dois quartos, no centro do Rio de Janeiro, no valor
de R$ 200 mil, e uma casa de um quarto, na Barra da Tijuca, no valor de R$ 220 mil,
onde residem alternadamente.
Com base na situação hipotética apresentada, julgue os próximos itens, a respeito do
bem de família.
94 Se Regina e Jorge não quiserem que qualquer dos imóveis seja considerado bem
de família em possível processo de execução movido em face deles, eles deverão
eleger um dos bens,
mediante escritura pública registrada no cartório competente.
95 Caso um dos imóveis residenciais do casal estivesse situado em área rural, tal fato
não seria óbice para sua instituição como bem de família.
COMENTÁRIO
94 – ERRADA. Como tantas vezes alertado em sala, o CESPE tem uma verdadeira
obsessão pela palavra “NÃO”. Ora, se o casal NÃO quiser que seja considerado bem
de família, eles deverão eleger um dos bens? Totalmente contraditório! E no caso,
ainda haveria o possível impedimento elencado no art. 1711, e seguintes do CC, que
é a limitação de 1/3 do patrimônio para instituição de bem de família voluntário. Se
bem que a questão não trouxe referência ao valor global do patrimônio do casal, mas
apenas sobre seus imóveis.
95 – CERTA – O STJ já teve oportunidade de por algumas vezes decidir que o fato do
bem se localizar em área rural, não o desqualifica como bem de família. Se isto fosse
possível, estaríamos diante de uma indevida quebra de igualdade entre os
proprietários urbanos e rurais. A própria Lei 8009/90, traz tal previsão em seu art. 4º, §
2º.
Acerca dos atos unilaterais, julgue os itens subsequentes.
96 Constitui requisito da ação de repetição de indébito o fato de o pagamento ter sido
realizado voluntariamente.
97 Considere que Ângela tenha locado imóvel de sua propriedade a Suzi e que esta
não pague os aluguéis há três meses. Nessa situação hipotética, considerando-se que
a falta de pagamento gera o enriquecimento de Suzi e o empobrecimento de Ângela,
não havendo causa jurídica que os justifique, a locadora poderá ingressar com ação in
rem verso para se ressarcir dos prejuízos sofridos.
COMENTÁRIO
96 – CERTA – O pagamento indevido é fruto de um ato voluntário do devedor que,
avaliando mal, erra ao efetuar o adimplemento de uma prestação. Tanto a
voluntariedade, quanto o erro, são requisitos para o pagamento indevido, espécie de
ato unilateral prevista no art. 876 e seguintes, CC.
97 – ERRADA – A cláusula geral dos atos restitutórios, como é conhecido o
enriquecimento sem causa, estampado nos arts. 884, e seguintes, CC, exige, para sua
aplicação, um desequilíbrio injustificado de dois patrimônios. A ação que visa o
reequilíbrio patrimonial é chamada de ação IN REM VERSO e está prevista no art.
886, CC. Detalhe; só terá cabimento quando não houver outra ação específica, o que
denota seu caráter residual. No caso exposto, o locador tinha à sua disposição a ação
de cobrança, a qual poderia, inclusive, vir juntamente com um pedido de despejo.
Com base na disciplina relativa à extinção dos contratos, julgue os itens a seguir.
98 Em virtude do princípio da autonomia de vontade, admite-se que seja inserida, no
contrato de compra e venda de bem móvel, pactuado entre particulares, a cláusula
solve et repete.
99 Para que o juiz resolva contrato entre particulares, com base na aplicação da teoria
da imprevisão, basta a parte interessada provar que o acontecimento ensejador da
resolução é
extraordinário, imprevisível e excessivamente oneroso para ela.
COMENTÁRIO
98 – CERTA – A cláusula solve et repete quando inserida pelas partes em um
contrato, impede que qualquer delas possam se valer da exceção do contrato não
cumprido (exceptio non adimpleti contractus), prevista no art. 476, CC. Assim, se for
inserida em contrato de compra e venda, a parte deverá, por exemplo, entregar o bem
ainda que não tenha ocorrido o pagamento do preço pela parte contrária. Como a
exceptio é norma dispositiva, a cláusula solve et repete pode ser inserida como forma
de afastar sua incidência.
99 – ERRADA – Esta questão é um exemplo de como o CESPE, por vezes, peca na
formulação de assertivas. O candidato tem que dizer se a questão está certa ou
errada. São quatro os requisitos para que o devedor pleiteie a resolução, nos termos
do art. 478, CC, quais sejam: evento extraordinário, imprevisível, que acarrete
onerosidade excessiva de uma das prestações, bem como a demonstração de
extrema vantagem para a outra parte. O CESPE, certamente, considerou esta questão
errada porque disse “basta a parte interessada provar que o acontecimento ensejador
da resolução é extraordinário, imprevisível e excessivamente oneroso para ele”, ou
seja, faltou a demonstração da extrema vantagem para a outra parte. O “basta” faz
com que a questão esteja incompleta, portanto errada na visão da comissão
organizadora! Mas, se formos à doutrina, veremos que vários autores, para viabilizar
inclusive a aplicação da teoria da imprevisão, mandam que se dispense esta
“demonstração de extrema vantagem para a outra parte”, mesmo porque, quando tais
eventos ocorrem, todos saem perdendo. O CESPE foi na literalidade da lei para
considerar errada esta questão. Errada não, digo incompleta!!
A respeito da disciplina dos bens, julgue os itens seguintes.
100 A praça, exemplo típico de bem de uso comum do povo, perderá tal característica
se o poder público tornar seu uso oneroso, instituindo uma taxa de uso, por exemplo.
101 O imóvel público onde esteja localizada uma Procuradoria Regional da União é
considerado bem de uso especial, qualificação que impede a sua alienação.
COMENTÁRIO
100- ERRADA – Conforme dito em aula, era óbvio que na prova da AGU seria cobrado
bens públicos. O fato do poder público cobrar taxa ou retribuição pela utilização de
bem público não retira destes a sua natureza. V. art. 103, CC.
101 – CERTA – Segundo o art. 100, CC, os bens públicos de uso comum e de uso
especial enquanto estiverem afetados, são inalienáveis. Esta foi para não zerar a
prova…
Ricardo, que dirigia seu carro em velocidade normal, atropelou Raimundo, causandolhe
sérios ferimentos. Em depoimento prestado na delegacia de polícia, Ricardo
afirmou que o atropelamento ocorrera por motivos de força maior, haja vista que
trafegava normalmente pela via quando um motoqueiro, dirigindo em alta velocidade,
cruzou a frente do veículo que ele conduzia, não lhe tendo restado outra alternativa
senão a de desviar o carro para o acostamento. Alegou, ainda, que não havia visto
Raimundo, que aguardava pelo ônibus no acostamento, e que, se não tivesse
desviado o veículo, ele poderia ter causado a morte do motoqueiro. Testemunhas
confirmaram a versão de Ricardo.
Com base nessa situação hipotética, julgue o item que se segue.
102 A despeito de o ato praticado por Ricardo não ser considerado ilícito civil, ele terá
a obrigação de indenizar Raimundo, caso haja o ajuizamento de ação com esse fim.
COMENTÁRIO
102 – CERTA – Embora tenha atuado em estado de necessidade, não praticando ato
ilícito nos termos do art. 188, CC, a lei não exclui o dever de reparar o dano causado,
indenizando-se a vítima. Certamente, no caso apresentado, Ricardo poderá regredir
contra o motoqueiro, solicitando-se deste o ressarcimento pelo valor que pagou a título
de indenização a Raimundo. Ver AgRg no Ag 789883 / MG, STJ – ano 2007, dentre
outros.
No que tange à responsabilidade civil, julgue o item seguinte.
103 Embora o CC somente tenha feito referência à boa-fé na conclusão e na
execução do contrato, a doutrina entende haver lugar para a responsabilidade précontratual,
a qual não se aplica aos chamados contratos preliminares, mas aos
contatos anteriores à formalização do pacto contratual.
COMENTÁRIO
103 – CERTA – A responsabilidade civil aqui questionada é a contratual, não a
extracontratual como na questão 102. Assim, baseado no art. 422, CC, afirma que a
boa-fé objetiva, como ensinado, aplica-se antes, durante e depois da execução do
contrato. Fases: pré-contratual, contratual e pós-contratual (post pactum finitum). Os
deveres anexos ou laterais oriundos da função integrativa da boa-fé objetiva, repita-se,
aplica-se em todos estes momentos da vida contratual. Na questão colocada, há um
erro gritante! Disse que a boa-fé e, em conseqüência, a responsabilidade précontratual,
não se aplica ao contrato preliminar. Como não? É óbvio que se aplica!
Pensem no principal contrato preliminar (ou pré-contrato) que nós temos; a promessa
(ou compromisso) de compra e venda. A boa-fé objetiva se aplica evidentemente a
este tipo de contrato preliminar. Pense no caso de adimplemento substancial, ou
deveres de transparência por parte do construtor, etc. E mais; é possível também se
falar em responsabilidade pré-contratual no âmbito de contratos preliminares (ex.:
após longa fase das tratativas, o vendedor desiste sem qualquer justificativa, de
celebrar a promessa de contratação). Esta questão é passível de RECURSO. Está
ERRADA. É o uso frenético do “NÃO”, desconfigurando a questão e o gabarito, por
consequência!
Considerando a disciplina do CC e a certeza de que o decurso de tempo tem
importante influência tanto na aquisição quanto na extinção de direitos, julgue os
próximos itens.
104 É válida cláusula inserida em contrato de seguro na qual se estipule que a
pretensão do segurado contra o segurador prescreva em dois anos, desde que haja
formalização do ato por instrumento público.
105 A prescrição pode ser alegada, em qualquer grau de jurisdição, pela parte a quem
aproveita, mas não poderá ser arguida em sede de recurso especial ou extraordinário
se não tiver sido suscitada na instância ordinária.
COMENTÁRIO
104 – ERRADA – Como tantas vezes lembrado na turma específica para a AGU, a
pretensão se submete à extinção pela ocorrência da prescrição (art. 189, CC).
Entretanto, os prazos prescricionais sempre serão legais (art. 205 e 206, CC). Não
existe prescrição contratual. É uma questão que sempre é cobrada em provas do
CESPE.
105 – CERTA – Em que pese a prescrição poder ser alegada em qualquer grau de
jurisdição (art. 193), para ser argüida em sede extraordinária ou especial, deve ter
ocorrido o prequestionamento, conforme também lembrado em aula.
Quanto aos princípios informadores dos registros públicos, julgue o item a seguir.
106 De acordo com o princípio da obrigatoriedade, nenhuma informação pode ser
perdida, devendo qualquer dado ser arquivado na matrícula do imóvel; segundo o
princípio da prioridade, se houver conflito de registro de imóvel embasado em títulos
dominiais diversos, prevalecerá o que tiver sido prenotado anteriormente.
COMENTÁRIO
106 – ERRADA – A primeira parte da questão, que diz respeito ao princípio da
obrigatoriedade em sede de registros públicos está errada. Isto porque tal princípio
impõe que certos atos sejam levados a registro, sob pena de não trazerem à parte
interessada os benefícios inerentes ao registro. Ou seja, registrar é um ônus para o
interessado. Se registrar, obterá os benefícios dali oriundos. Caso contrário, deixará
de alcança-los. A expressão “devendo qualquer dado ser arquivado” já induz à idéia
de que a questão está errada. A segunda parte da questão, quanto ao princípio da
prioridade está correta.
Considerando a disciplina do direito das coisas no CC, julgue os itens de 107 a 110.
107 Considere que Francisco, proprietário e legítimo possuidor de um apartamento,
tenha anunciado sua intenção de aluga-lo há mais de quatro meses, mas não
consegue fechar nenhum negócio porque Luís, proprietário do imóvel vizinho, cria
dificuldades e embaraços às visitas dos pretensos locatários, situação que ampara a
pretensão de Francisco de ajuizar uma ação de interdito proibitório. Nessa situação
hipotética, o comportamento de Luís importa ameaça de turbação ao direito de posse
de Francisco.
108 A passagem de uma tubulação de gás sob um terreno pertencente a outrem
constitui uma servidão, porém seu caráter contínuo ou descontínuo é determinado
pelo uso da estrutura, visto que somente a utilização efetiva e ininterrupta determina o
caráter contínuo da servidão.
109 A indivisão dos condomínios voluntários pode ser determinada por disposição do
doador, do testador ou dos próprios condôminos por prazo não superior a cinco anos,
o qual pode ser judicialmente desconsiderado se houver razões graves para tanto.
110 A presunção relativa de que pertence ao proprietário a construção ou plantação
feita em seu terreno opera em seu favor no caso da utilização de materiais ou
sementes alheias, embora, provada a utilização de bens alheios por tal proprietário,
sejam devidos reposição patrimonial e até perdas e danos, estes condicionados à
prova da má-fé do referido proprietário.
COMENTÁRIO
107 – ERRADA – Esta questão exige bastante atenção. No caso, o vizinho já está
criando dificuldades e embaraços. Logo, já está turbando. Veja; “cria dificuldades e
embaraços às visitas dos pretensos locatários”. Assim, a ação possessória (ou
interdito possessório) cabível seria a manutenção de posse. Se estivesse escrito
“ameaça criar dificuldades e embaraços”, aí sim a ação cabível seria o interdito
proibitório, ante a ameaça de turbação. Alguns poderiam pensar: mas e o princípio da
fungibilidade entre as ações possessória? É o que sempre digo; o candidato está
julgando a questão, e não hipóteses que não estão escritas. Então pergunto: a
questão falou em princípio da fungibilidade? Não. Desta forma, não tem que se pensar
neste princípio. Deve-se concentrar apenas em julgar a assertiva como certa ou
errada.
108 – ERRADA – A servidão, como direito real de gozo ou fruição admite várias
classificações, sendo as mais comuns – aparente e não aparente; contínua e
descontínua. Será contínua aquela que independentemente de ato humano está a
gravar o prédio serviente, ou seja, uma vez estabelecida, processa-se sem
intervenção humana. Ex.: Servidão de vistas, servidão de aqueduto, cabos,
tubulações, etc. Ou seja, o caráter contínuo não se liga ao uso efetivo e ininterrupto.
109 – CERTA – Esta questão é uma cópia da lei seca. Basta verificar o art. 1320, CC
e seus parágrafos.
110 – CERTA – Como demonstrado na primeira aula dada para a turma da AGU, em
sede de acessão artificial vigorará o princípio da gravitação jurídica, sob a
denominação específica de superfícies solo cedit. Tudo o que se incorporar ao solo,
passará à propriedade do dono deste. O acessório segue o destino do principal.
Assim, aquele que constrói em terreno próprio, com materiais alheios, adquire a
propriedade destes materiais. Se estiver de boa-fé, deverá ressarcir ao dono dos
materiais apenas o seu valor. Se de má-fé, o ressarcimento será acrescido do
pagamento de perdas e danos. Ver art. 1254, CC.

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Liberdade é o direito de fazer tudo o que a lei permite. Montesquieu

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